Seis Dias nos Lençóis: de Buggy pelas Dunas, de Barco pelo Rio
Half Charted — Maranhão, Brasil
Seis Dias nos Lençóis: de Buggy pelas Dunas, de Barco pelo Rio
Um roteiro pelos Lençóis Maranhenses contado por quem foi: lagoas turquesa entre as dunas, um dia de barco até um farol listrado e uma tempestade que chegou na hora certa.
Estivemos lá. Todos os lugares citados abaixo, visitamos pessoalmente. Informações que não vimos com os próprios olhos foram checadas em outras fontes e estão identificadas como tal.
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Chegada a São Luís, já de noiteEstivemos lá
Voamos pela LATAM de Fortaleza a São Luís, pousando depois do anoitecer. O voo em si já rendeu um dos momentos marcantes da viagem, antes mesmo de ela começar de fato: mais ou menos a dois terços do trajeto, bem na divisa entre Piauí e Maranhão, o litoral se abre no Delta do Parnaíba — dezenas de ilhas entrelaçadas por canais de maré, manguezal e campos de dunas encontrando o Atlântico aberto na última luz do dia. É um dos poucos deltas do mundo que deságua direto no mar aberto, em vez de numa baía, e costuma ser descrito por aqui como o terceiro maior do gênero no mundo, atrás apenas do Nilo e do Mekong (uma afirmação repetida com mais entusiasmo do que rigor, mas a escala vista da janelinha do avião é real de qualquer forma). Passamos a primeira noite no Hotel Santos Dumont Aeroporto, bem perto do aeroporto: sem sentido enfrentar o trânsito de São Luís à noite, já que sairíamos da cidade de novo na manhã seguinte.
Ainda assim, fomos jantar com calma: Cabana do Sol, na Av. Litorânea, no Calhau — uma casa de frutos do mar bem conhecida, com música ao vivo na maioria das noites, e uma boa forma de entrar no clima da cozinha maranhense antes de a viagem começar de verdade.


A estrada até as dunas, e uma primeira lagoaDestaque
O trajeto de São Luís a Barreirinhas já leva quase um dia inteiro por si só — a estrada cruza vários rios pelo caminho, alguns por ponte, pelo menos um trecho de balsa (a Balsa Maria Basto). Estávamos viajando em abril, ainda na cauda da estação chuvosa por ali, e isso se notava: trechos da estrada bem alagados, caminhos de areia virados em lama e água parada, com o motorista contornando mais de uma vez em vez de simplesmente atravessar.
Então, um pouco depois do povoado de Massangano, sem aviso nenhum e sem placa alguma, a vegetação rasteira dá lugar a dunas e a uma lagoa — uma daquelas paradas de estrada que não estão marcadas em lugar nenhum como atração, apenas um ponto por onde a estrada passa. Paramos, nadamos e ficamos tempo suficiente para ver a luz mudar: o fim de tarde dourado emendando numa formação de nuvens de tempestade bem dramática se acumulando sobre a linha das dunas. Nunca conseguimos confirmar um nome oficial para essa lagoa específica — ela não aparece como ponto comercial nem como ponto de interesse em nenhum mapa, e é bem possível que simplesmente não tenha nome.


Chegamos ao Porto Preguiças Resort, em Barreirinhas, já ao entardecer — um resort cinco estrelas às margens do Rio Preguiças, que seria nossa base pelas três noites seguintes. O próprio terreno já merece um parágrafo à parte: bangalôs de tijolo aparente e telhado de telha espalhados por jardins tomados por buganvílias e ixoras, caminhos de pedra serpenteando até uma capelinha amarela, e palmeiras suficientes para esquecer que se está a poucos minutos de um campo de dunas. Além dos quartos, tem uma grande piscina turquesa, restaurante próprio e o bar “C. Morgan”, além de um píer no rio usado nos passeios de barco — tudo o que precisávamos pelas três noites, sem sair do resort entre o dia de buggy e o dia de barco. A propriedade fica bem na margem do Rio Preguiças, e a vista sobre o rio a partir do próprio terreno, ao entardecer, já vale a pena por si só. O próprio resort também organiza os passeios, incluindo o passeio de buggy pelas dunas e o passeio de barco pelo rio que aparecem nos Dias 3 e 4 abaixo — basta reservar na recepção, sem precisar contratar separadamente.


Um dia inteiro de buggyDestaque
Este é o dia que a maioria das pessoas imagina quando pensa nos Lençóis Maranhenses: um dia inteiro de buggy 4×4 pelo campo de dunas, saindo pela Ponta do Mangue, com almoço no Restaurante do Sr. Antônio, ali mesmo. As dunas não formam um bloco único, mas um mar ondulado de areia, e cada vale entre uma e outra guarda a sua própria lagoa — algumas de um azul quase preto e parado, outras de um turquesa vibrante, a cor mudando conforme a profundidade e o ângulo da luz. Cavalos soltos também aparecem por ali, pastando no pouco de vegetação que resiste no meio das dunas, completamente indiferentes à passagem dos buggies.
Nadamos em várias das lagoas ao longo do dia — a água é doce, não salgada, vem da chuva acumulada e não tem ligação com o mar, o que em parte explica essa cor tão limpa. De volta a Barreirinhas ao fim do dia, uma parada para um lanche na Casa da Tapioca, no bairro Santo Antônio — boa forma de fechar um dia passado, em boa parte, descalço na areia.





Rio Preguiças abaixo, até um farolEstivemos lá
Desta vez, um dia inteiro na água, de barco pelo Rio Preguiças a partir de Barreirinhas. Primeira parada em Caburé, um vilarejo estendido numa restinga entre o rio e o Atlântico aberto, conhecido pela descida correndo de uma duna alta direto na água — uma forma bem divertida, e um tanto ridícula, de se refrescar. Dali, seguimos até o Farol de Mandacaru, listrado em preto e branco, ainda de vigia na foz do rio, com almoço por perto no Restaurante Portal do Caburé, em Mandacaru. Já no caminho de volta a Barreirinhas, avistamos ao longe uma fileira de turbinas eólicas perto da costa — o corredor de vento do Maranhão é um dos mais fortes do Brasil, e dá para perceber por quê.


Uma última manhã, depois a estrada de voltaEstivemos lá
Uma última manhã tranquila no Porto Preguiças Resort — piscina, água de coco, o bar do próprio resort, o “C. Morgan”, e borboletas trabalhando os canteiros do jardim. Depois, a estrada de volta a São Luís, desta vez por terra em vez de barco, com uma parada para jantar no caminho no Rodocenter Fazendinha, restaurante de beira de estrada na BR-402, em Axixá — daqueles pontos confiáveis que aparecem em praticamente qualquer rota por essa parte do Maranhão. De volta a um hotel perto do aeroporto de São Luís para passar a noite, prontos para o voo da tarde seguinte.


Voltando para casaEstivemos lá
Um voo à tarde saindo de São Luís encerrou a viagem — sem paradas, sem fotos, só o resto da mala e o caminho até o aeroporto. Seis dias do início ao fim, e nenhum deles pareceu enchimento.
O essencial sobre os Lençóis Maranhenses, de quem esteve lá
- As lagoas ficam mais cheias entre junho e setembro, quando as chuvas já pararam mas o sol ainda não teve tempo de secá-las — essa é a janela clássica de cartão-postal. Fomos em abril, na cauda da estação chuvosa, e ainda assim encontramos as lagoas cheias, só que com mais nuvem, estradas mais molhadas e uma boa tempestade no meio do caminho.
- O Porto Preguiças Resort fica em Barreirinhas mesmo e funcionou bem como base única tanto para o dia de buggy quanto para o dia de barco — sem precisar trocar de hotel no meio da viagem.
- Não espere achar placa ou bilheteria na parada de dunas e lagoa perto de Massangano — é só um ponto na estrada, não uma atração cadastrada. Se quiser parar por lá, peça ao motorista ou à agência de transfer.
Recomendações sinceras, não uma lista patrocinada
Mais sobre o Porto Preguiças Resort, nossa base em Barreirinhas, lá no Dia 2.
Se tiver mais dias: Atins e além
Não chegamos a Atins nessa viagem, e, olhando em retrospecto, devíamos ter reservado mais alguns dias para isso. É a próxima parada depois do farol, na mesma rota de barco — um vilarejo de pescadores discreto, ruas de areia, nada da infraestrutura de resort de Barreirinhas — e está entre os pontos mais bem avaliados do mundo para kitesurf em água plana, com vento forte e constante de julho a dezembro, mais ou menos. Também é o ponto de partida real para as lagoas mais profundas dentro do campo de dunas, a Lagoa Bonita e a Lagoa Azul, mais uma expedição de 4×4 e trilha do que uma parada rápida, e que merecem um dia cada. Se você estiver seguindo para o leste em vez de voltar a São Luís, Tutóia e o Delta do Parnaíba também valem o desvio — passeios de barco pelas ilhas de mangue do delta, ajustados se possível para pegar a revoada dos guarás, centenas de guarás-vermelhos voltando para pousar pouco antes do pôr do sol. Não fizemos nada disso ainda, então trate como uma pista a checar, não como recomendação — atualizamos este trecho assim que tivermos ido de verdade.
- Roteiro pelo Piauí em 10 Dias — arte rupestre, trilhas na caatinga e um deserto de agulhas rochosas, saindo de Fortaleza.
- Serra da Capivara: o guia completo — acesso, guia, custo, e os dois circuitos que merecem ser citados diretamente.
- Capadócia Nordestina: o deserto de agulhas rochosas escondido — por que não dá para simplesmente aparecer, e a história da seca que ficou com a gente.
- Serra das Confusões: onde dois biomas se encontram — o roteiro batizado, sem precisar de 4×4.